Tentara de tudo. Sua mulher tentara de tudo. Seus filhos tentaram de tudo, mas Jairzinho não largava o terrível hábito do cigarro. Sua mulher tentara chantageá-lo com todas as artimanhas já inventadas por mulheres para comandar seus maridos. Seus filhos escondiam os cigarros e até roubavam alguns de vez em quando para que ele fumasse menos.
- Pai. Quando você vai parar de fumar? – perguntou o caçula, Jairzinho Júnior inocentemente.
- Estou diminuindo, daqui a pouco eu paro.
Ele, naturalmente, aceitou a resposta do pai, e não achou nem um pouco estranho que o pai não desviara o olhar do jornal enquanto respondia.
Certa ocasião até defendera o pai para a mãe, quando seus pais entraram numa discussão acalorada sobre os cigarros.
- Mãe! Ele está diminuindo. Daqui a pouco ele para! – ele disse decidido.
Sua mãe olhou para seu pai. Olhou pra ele.
- Tá vendo seu safado. Mentindo pro seu próprio filho. Sem vergonha – ela deu de ombros e foi embora para o quarto, batendo a porta em seguida.
Jairzinho Júnior não entendeu nada e ficou na sala olhando atentamente enquanto o pai acendia outro cigarro.
Dois anos depois Jairzinho começou a ter os primeiros sinais de que o cigarro o afetava de algum jeito. Já não conseguia mais andar como antigamente. Cansava-se rapidamente. No aniversário de 7 anos do Jairzinho Júnior ele quase não conseguira encher nenhum balão. Desistindo depois do terceiro e indo fumar mais um cigarro.
No ano seguinte Jairzinho Júnior perguntou novamente para o pai:
- Pai. Quando você vai parar de fumar?
- Agora acho que falta pouco. Estou diminuindo.
Dessa vez se arrependera de não esperar o pai terminar de ler o jornal para perguntar e resolveu começar a contar.
A mulher de Jairzinho o levou ao médico para uma consulta. Como último recurso antes dela desistir completamente do marido resolveu subornar o doutor para que ele dissesse que Jairzinho estava com câncer.
- Mas, como isso é possível doutor? – ela perguntou fingindo completo choque diante do prognóstico.
O médico deu de ombros sem saber bem o que dizer.
- E quanto tempo tenho doutor? – perguntou Jairzinho calmo.
- É difícil dize... – foi interrompido por um chute em sua canela – sinto muito, mas o senhor tem 2 a... – chute mais forte – meses de vida.
- 2 meses? – a mulher começou a chorar desesperada.
Jairzinho abaixou a cabeça se conformando com sua morte futura.
- E não há nada que ele possa fazer? – ela perguntou segurando o choro.
- Bom. Se ele parar de fumar é capaz de conseguir mais alguns mes... – chute – anos caralho!
- Calma doutor. Não precisa ficar nervoso – Jairzinho disse assustado com a reação do médico.
Os dois saíram do consultório e no caminho para casa Jairzinho não disse nada. Sua mulher tentara puxar assunto duas vezes, sem sucesso. Finalmente ela desistiu e foi direto ao assunto.
- Agora você vai parar de fumar?
- É claro. Minha vida depende disso! – ele respondeu bravo.
E ele cumpriu. Ficou três meses sem fumar um cigarro, exceto pela vez que sua sogra ficara hospedada em sua casa por 1 semana, quando ele fumou quatro maços por dia durante três dias esperando que a morte viesse.
Não veio. Ele desistiu e parou de novo.
No quarto mês depois de não sentir nenhuma diferença em sua saúde, voltou a fumar. Dessa vez o dobro do que antigamente... pra recuperar o tempo perdido.
Sua mulher e seus filhos então desistiram dele. Não queriam mais saber da história do cigarro. Chegaram ao acordo de que ele não fumaria no quarto nem na sala... se eles soubessem que nunca mais conseguiriam entrar no banheiro no fim de semana não teriam imposto essa regra.
No ano seguinte Jairzinho chegou em casa sério. Nunca estivera tão sério em toda vida.
- O que aconteceu querido?
- Bom. Tenho más noticias.
- Meu Deus! – ela gritou – você está tendo um caso? Não acredito em você. Seu desgraçado! Cafajeste! Sem vergonha!
Ela começava a avançar pra cima dele quando ele gritou secamente.
- Não estou tendo um caso!
- Então o que foi? Nunca te vi assim.
- Bom. Sabe a faculdade que o Jorginho passou?
- Sei.
- Então. Acho que não vou ter dinheiro pra pagar... nem a escola nova do Jairzinho Júnior.
- Como assim?
- É porque o dinheiro vai ficar curto agora.
- Mas, a gente vai dar um jeito. Certo? É só por enquanto.
- Bom. Espero que sim. A propósito sabe o colar de pérolas que te dei de presente?
- Ah Não! Meu colar não.
- Sinto muito querida. Não vou ter dinheiro pra pagar as próximas prestações.
Ela começava a chorar.
- Não entendo. O que aconteceu?
- Perdi meu emprego. Meu novo chefe quis fazer algumas mudanças.
- E agora? Como vamos manter a casa?
- Não vamos. Já liguei pra sua mãe e falei que teríamos que ficar com ela por algum tempo.
Ela desabou a chorar.
- Mas tenho uma boa notícia.
- Qual?
- Parei de fumar!
E ele realmente parou. Até mudar para a casa da sogra, onde começou a fumar seis maços por dia esperando ansiosamente que o câncer voltasse.